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Prefeitura e estado admitem possibilidade de escolas só voltarem integralmente em 2021

Apesar de ter antecipado etapas de flexibilização das regras de isolamento social da cidade, a prefeitura do Rio adota um ritmo mais lento no planejamento do retorno das aulas presenciais e já admite a possibilidade de parte dos 650 mil alunos de sua rede só voltar às escolas em 2021. A informação foi dada ao GLOBO pela secretária de Educação, Talma Suane, e a mesma hipótese já é avaliada pelo governo do estado. Por enquanto, esse cenário ainda não é considerado por unidades privadas de ensino, que tinham a expectativa de reabrir este mês. O plano foi frustrado porque não houve consenso com sindicatos de profissionais de ensino e autoridades sanitárias.

De acordo com a secretária municipal de Educação, está decidido que, a exemplo do que acontece em outras atividades, haverá fases de retomada das aulas, começando por 350 das 1.541 unidades da rede da prefeitura. Caberá às turmas do 9º ano reabrirem as escolas, que ainda precisam ser adaptadas para o ensino em tempos de pandemia.

— O processo será gradual. Escolhemos retomar as aulas pela última série, até porque nossas escolas contam com, no máximo, quatro turmas por turno no 9º ano. O andamento do retorno dos outros alunos será definido em acordo com o comitê científico da prefeitura. Se for aconselhável, algumas séries continuarão com aulas virtuais até o fim de 2020, voltando às escolas somente em 2021 — diz Talma.

Dos cerca de 650 mil alunos matriculados em escolas da prefeitura, 37.415 (5,75%) estão no 9º ano. Em maio, a prefeitura chegou a divulgar um cronograma que previa o reinício das aulas presenciais a partir deste mês. E, originalmente, o plano iniciaria com o retorno dos alunos do pré-escolar e das primeiras séries do ensino fundamental. Mas, apesar de o comitê científico não ter chegado a um consenso sobre a questão, foi levado em conta um cenário no qual crianças menores têm mais contato com um número maior de parentes, o que elevaria o risco de eventuais contaminações pela Covid-19.

A volta às aulas na rede municipal é debatida por uma comissão especial criada há um mês. As discussões, explicam integrantes do grupo, abordam questões que vão da infraestrutura das escolas à necessidade de identificação de alunos, professores e funcionários de apoio que fazem parte de grupos de risco.

— Muitos alunos da rede podem ter problemas de saúde e não seria recomendada sua volta às aulas. Mas esse estudo ainda não foi apresentado — informa a professora Ioliris Paes, integrante do grupo e assessora do vereador Célio Luparelli, da Comissão de Educação da Câmara Municipal.

Em uma reunião no mês passado, técnicos do Tribunal de Contas do Município apresentaram um levantamento no qual apontam que parte das escolas da prefeitura com turmas do 5º ao 9º ano não tem condições de cumprir as chamadas “regras de ouro” de higiene e limpeza. Das cerca de 200 unidades que visitaram, 69% tinham problemas nos banheiros, como vazamentos e falta de sabão, vasos sanitários e papel. A lista não foi divulgada porque o relatório ainda será julgado pelo TCM.

Na rede estadual, a direção de cada escola terá autonomia para definir a forma de retorno das turmas. Mas, assim como nas unidades municipais, a prioridade será receber alunos do 9º ano do ensino fundamental e também do 3º do médio, que precisam se preparar para o Enem. O secretário de Educação do governo fluminense, Pedro Fernandes, destaca que todas as decisões levarão em conta critérios epidemiológicos, e admite a possibilidade de parte dos estudantes só retornar em 2021, embora a ideia seja abrir as unidades este ano, mesmo sem aulas:

— É difícil, hoje, ter uma resposta concreta sobre a volta às escolas, pois isso depende de orientações da área de saúde. Mesmo se algumas séries não retornarem este ano, o que pode acontecer, a ideia é manter as escolas abertas para os alunos que precisam de computadores para assistir às aulas virtuais. Mas teremos uma avaliação do aprendizado presencial e um cronograma para que os estudantes possam tirar dúvidas pessoalmente com professores.

Em audiências públicas na Assembleia Legislativa na terça e na quinta-feira, técnicos informaram que a volta às aulas na rede estadual depende de uma escala de classificação de risco de contágio que tem cinco níveis. Cada um é calculado com base em uma série de indicadores, como oferta de leitos nos hospitais e total de casos confirmados. O que ainda se discute é a possibilidade de o retorno ser descentralizado, tendo início por regiões menos atingidas pela pandemia.

Circulação de ar

Nas redes municipal e estadual, o planejamento de retorno das aulas ainda precisa levar em conta dificuldades relacionadas à infraestrutura. Há desafios arquitetônicos a serem vencidos. Nos últimos anos, a prefeitura do Rio climatizou um grande número de escolas, e, por conta disso, as janelas de muitas delas não podem mais ser abertas. Em meio a uma pandemia, uma boa circulação de ar é fundamental.

— Muitas vezes, esse problema da ventilação não é visível porque a arquitetura das escolas foi descaracterizada. Originalmente, os Cieps tinham grandes vãos, que permitiam uma melhor circulação do ar. No entanto, todos foram fechados para a climatização. O mesmo aconteceu com muitas escolas que tinham elementos cobogó (tijolos vazados) — conta Gustavo Miranda, coordenador-geral do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe). — Ou seja, em tempos de coronavírus, a volta às aulas também depende de obras.

Talma Suane não vê essa questão como um problema:

— A Vigilância Sanitária diz que os aparelhos podem continuar em funcionamento, basta as salas ficarem abertas para facilitar a circulação do ar. Acabamos de fechar um novo contrato para a manutenção dos equipamentos da rede.

Colégios particulares esperam reabertura ainda este ano

Na rede particular, os preparativos avançam, mas o retorno às aulas depende de uma autorização da prefeitura. O presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Educação Básica, José Carlos Portugal, diz que não trabalha com a hipótese de as turmas não voltarem às escolas este ano. Porém, ele evita estabelecer datas, apesar de muitas unidades particulares trabalharem com uma expectativa de reabertura em agosto ou setembro. Uma vez anunciada, a retomada das atividades presenciais deverá acontecer 15 dias depois.

— Na perspectiva das escolas privadas, não retornar em 2020 está fora de cogitação. O que possivelmente acontecerá é darmos um tratamento diferenciado para os alunos que tenham algum problema de saúde e não queiram se expor — afirma Portugal. — Não haverá um comportamento padronizado na rede. Cada escola será livre para definir a época que for mais conveniente.

Nas escolas Eleva, em Botafogo e na Barra, a estratégia de retomada das atividades inclui horários de entrada e saída específicos por turmas e rodízio entre aulas presenciais e à distância. Haverá controle de acesso, com medição de temperatura. Na unidade da Zona Sul, que funciona em tempo integral, a rotina mudará até na hora do almoço: alunos vão comer nas salas de aula, em vez de irem para o refeitório.

Para proteger professores e estudantes a partir do 6º ano (que têm aulas multidisciplinares), as primeiras fileiras de carteiras terão uma espécie de aparador, semelhante aos modelos em acrílico instalados em caixas de supermercados. Máscaras serão obrigatórias.

— E os pais não terão acesso ao interior da escola — informa o diretor -geral da Eleva de Botafogo, Antônio Amaral Cunha.

A mesma regra de obrigatoriedade do uso de máscara será adotada pelo Colégio São Vicente de Paulo, no Cosme Velho. Mas só partir do 6º ano.

— Crianças abaixo de 10 anos geralmente não têm maturidade para usar máscaras o tempo inteiro. Há risco de contaminação se jogarem, de brincadeira, o acessório no chão ou em direção a um colega — argumenta a coordenadora comunitária, Lúcia Regent.

A escola contratou uma consultoria para estabelecer protocolos de segurança. As precauções vão da instalação de dispensers de álcool em gel à montagem de uma tenda na entrada, pela qual passarão os 1.200 alunos do São Vicente de Paulo: ali, haverá medição de temperatura e um tapete sanitário, que será usado até para limpeza de rodinhas de mochilas.

A Escola Americana, que tem unidades na Barra e na Gávea, criou uma espécie de manual para a retomada das aulas. As orientações partiram de especialistas brasileiros, da Organização Mundial de Saúde e do Centro de Controle de Doenças de Atlanta, referência nos Estados Unidos. Haverá sistema de rodízio de aulas presenciais e virtuais, e atividades físicas seguirão várias normas, incluindo o uso de máscaras.

No Colégio Santo Inácio, em Botafogo, o recreio será dentro das salas de aula, para reduzir a necessidade de deslocamentos dos alunos. Além disso, rompendo uma tradição, os estudantes a partir do 6º ano não vão mais precisar se dirigir aos espaços específicos de cada disciplina.

Na Escola Parque, que tem unidades na Gávea e na Barra, ficou decidido que haverá uma redução da duração das aulas presenciais.

— Vamos continuar com uma jornada diária de cinco horas e meia. Mas, nos dias de aulas presenciais, os alunos permanecerão três horas e meia na escola. As outras duas horas serão mantidas, mas de maneira virtual — explicou Patrícia Lins, uma das proprietárias da rede.

A rotina para o “novo normal” já está sendo ensaiada nas aulas à distância no Colégio Marista São José, na Tijuca. Professores e alunos começaram a usar máscaras durante o ensino on-line, e o tempo de uso aumenta a cada semana. A ideia é que toda a comunidade escolar utilize o acessório, mesmo os alunos mais novos.

— Mas vamos manter a alternativa de aulas virtuais, para resguardar alunos e professores e preservar todas as pessoas do grupo de risco — explica a diretora-geral, Eveline Morelli Lima.

Fonte: O GLOBO


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