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Médicos de Campos ameaçam deflagrar greve diante do caos na Saúde e descaso com a população

Reunião na última terça teve enumeradas todas as deficiências do setor, desde falta de médicos até carência de materiais para atendimento nas unidades de saúde  Foto: Divulgação

Em reunião extraordinária, em caráter de urgência, na noite da última terça-feira (3), na sede da Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia, representantes do Sindicato dos Médicos de Campos (Simec) e do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) – seccional Campos dos Goytacazes -, os médicos discutiram o caos pelo qual passa a saúde pública do município, visando prestar esclarecimentos à população e tomar providências para minimizar os agravos, como a morte de uma professora do Farol de São Thomé que morreu no início desta semana, por falta de profissionais nas unidades de saúde. A categoria ameaça paralisar as atividades no dia 17 deste mês, caso o quadro da saúde no município não passe por reformulação, melhorias e valorização dos profissionais, tendo em vista as necessidades dos campistas.

Há mais de um mês – diante das péssimas condições de trabalho e a grande deficiência de insumos e medicamentos, bem como a falta de estrutura das unidades de saúde -, os médicos estiveram reunidos com o prefeito Rafael Diniz e com a secretária de Saúde, Fabiana Catalani para expor os graves dilemas enfrentados no cotidiano de trabalho dos profissionais da área. Mas nada avançou, podendo gerar problemas de dimensões ainda maiores.

“Dialogamos com os gestores e protocolamos documentos com as demandas médicas que precisavam ser prontamente atendidas pelo risco de sérios prejuízos à população e à qualidade do serviço que prestamos. Solicitamos um relatório de gastos com a saúde para tentarmos entender a problemática, mas não obtemos retorno. Deram prazo de um mês para reposição de insumos e medicamentos, no entanto, não vimos nenhuma medida efetiva para mudança do quadro; pelo contrário, atualmente assistimos a um cenário sombrio, resultado deste descaso. Nossa luta é para mostrar aos gestores que estamos lidando com vidas. Essa é a nossa grande angústia”, declarou o presidente do Simec, José Roberto Crespo.

Presidente do Sindicato dos Médicos de Campos, José Roberto Crespo Foto: Divulgação

Durante a reunião, os médicos enumeraram, de forma sucinta, os graves problemas que enfrentam na saúde municipal em Campos, entre eles:

Redução, arbitrária, da equipe de médicos plantonistas da Unidade Pré-Hospitalar (UPH) de Guarus, UPH da Saldanha Marinho e do Hospital São José, sobrecarregando os serviços que já possuem demanda enorme, além de motivar a demissão de vários médicos pela absurda sobrecarga de trabalho imposta, sem diálogo algum – o que acarretará danos diretos aos usuários, pelo aumento do tempo de espera e pela diminuição de profissionais para atendê-los;

Extinção do serviço de ortopedia para cirurgias eletivas, que realizava cerca de 200 cirurgias/mês, com uma equipe de 12 cirurgiões ortopédicos. Também foi desmontada a rede de apoio que existia nos hospitais contratualizados para ortopedia, com redução de 95 % das transferências, antes realizadas de pacientes ortopédicos oriundos do Hospital Ferreira Machado (HFM) para Sociedade Portuguesa de Beneficência de Campos (SPBC), Hospital Plantadores de Cana e Santa Casa de Misericórdia.

Fechamento de várias Unidades Básicas de Saúde (UBS’s) e o fechamento dos serviços médicos especializados nos hospitais contratualizados, resultando na superlotação nos hospitais de emergência de grande porte (Hospital Geral de Guarus – HGG e HFM), com sobrecarga das equipes médicas e da estrutura dos hospitais. Mesmo diante disso, apesar de diversos apelos dos profissionais aos diretores e superintendentes, não foi permitida a substituição do plantonista, que tem direito a férias. Tal medida atinge não só os médicos, que ficam sob estresse excessivo, como também os pacientes, que terão menos profissionais para assistí-los;

Demissão coletiva dos médicos sob regime de Recibo de Pagamento Autônomo (RPA) motivada pelo atraso de dois meses nos seus vencimentos, além de terem sido surpreendidos pelo corte de 60% nos salários e pela incerteza dos seus próximos pagamentos. Outubro iniciou com muitas unidades de saúde sem médicos. Por causa dessas demissões, a UBS do Farol, por exemplo, já não conta com cerca de 17 médicos “RPAs” e como conseqüência, encontra-se sem atendimento médico em vários dias da semana. No último dia 2, foi noticiado que uma senhora que chegou em PCR [parada cardiorrespiratória] na UBS do Farol, falecendo sem atendimento médico. Ao ser levada para a UBS de Baixa Grande, também não encontrou médico, pelo mesmo motivo: demissão;

A UPH de Guarus encontra-se fechada para atendimento médico desde 01/10/2017, em vários dias da semana, também devido à demissão em massa, especialmente motivada pela falta de pagamento e também pela retirada de um plantonista de cada equipe;

A atual falta de médicos nos serviços de emergência demonstra a urgência da realização de  um processo seletivo ou concurso para regularização desses profissionais. O movimentou tomou ainda maior proporção após reunião realizada em 02/10/2017 com o prefeito, secretária de saúde, diretores clínicos e representantes dos médicos “RPAs”. Mais uma vez, não foi dada solução para cumprimento do pagamento dos salários. Além de ser confirmado o corte salarial, não houve estipulação de data fixa para pagamento;

Foi protocolado documento pelos médicos obstetras, pediatras e anestesistas, que formam o corpo clínico da maternidade da SPBC que resolveram, diante do não pagamento dos honorários e do não estabelecimento de calendário de pagamento, além do não cumprimento pela prefeitura das cláusulas da contratualização municipal, que irão paralisar o atendimento na maternidade a partir de dia 01/11/2017; e o

Fechamento de várias enfermarias de especialidades que funcionavam nos hospitais contratualizados, dentre elas: cirurgia vascular, cirurgia torácica, gastroenterologia, ortopedia, clínica médica e cardiologia. Fato que implica em grave dano ao paciente, que fica aguardando “vaga inexistente” nas enfermarias referidas e, por isso, inflam [lotam] até os corredores dos hospitais de emergência em situação precária de acomodação. Dessa forma, portanto, vão permanecendo sem a devida estrutura [leitos adequados nas enfermarias ou nas unidades fechadas] e sem o seguimento devido [cirurgias ou procedimentos].

Prefeito, mesmo ciente, demonstra descaso com prioridades como a saúde da população Foto: Carlos Grevi

Os médicos frisaram, durante a reunião, que aguardam, há 10 meses – tempo do Governo Rafael Diniz à frente da Prefeitura de Campos -, alguma mudança positiva na saúde do município, explanando a realidade que o setor vivencia, sem ouvir, sequer “palavras de esperança dos nossos gestores”.

Uma assembleia geral está marcada para o próximo dia 17, na Sociedade Fluminense de Medicina, com a presença de todos os médicos servidores públicos da cidade, para a votação que decidirá pela possibilidade de greve dos profissionais, além de outras decisões junto aos órgãos representantes da categoria.

A prefeitura emitiu nota, por meio da Superintendência de Comunicação. Confira:

“O município vem se adequando a atual situação financeira, sem que haja prejuízo nos atendimentos à população. Para que a população permaneça assistida, a secretaria de Saúde disponibilizou nas unidades que estão passando por ajustes e contam com ambulâncias 24 horas, a fim de que atendimentos complementares possam ser realizados nas unidades mais próximas, até que alguns procedimentos estejam regularizados. Em casos de urgência e emergência domiciliar, a população pode contar com o serviço de atendimento através do 192”.

 


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