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ARTIGOS

Elmar Martins – Rio

Elmar Martins é advogado, professor universitário e membro da Academia Campista de Letras (ACL)

 Na quinta-feira olhei pela janela para saber as horas.  Não no relógio da catedral parado ali pertinho, do outro  lado da rua. Chego até ele em meio minuto a pé, e o vejo quando desço do quarto andar, pelo elevador.Veria o relógio se meu escritório na Sete de Setembro  não estivesse  voltado para outro lado, mas para a Catedral . Olhei pela janela para ver que horas eram. Depois percebi a tolice. Que, aliás, não era bem tolice. Neste março, ao contrário do que sucedeu em março do  ano  passado, tem chovido diariamente, pontualmente,  por volta das sete da noite.

Olhei e vi a hora pela chuva, porque  chovia. Chovia forte chuva de verão. Mas será que isso é coisa que se comente?  Sim, porque aquela chuva me deixou meio melancólico. Acho que porque, na vinda, passando perto do Jardim São Benedito, vira uma casa abandonada. E casa abandonada sempre me dá uma sensação de débito, de culpa, de carência, de abandono pessoal.

Eu me torno automaticamente solidário contra essa espécie muito peculiar de abandono praticado não sei de que nem por quem. Uma casa abandonada não é uma casa vazia pura e simplesmente, como um automóvel deixado. É uma casa que chora porque nela não há mais o riso de antes. Uma casa onde já houve e agora falta…amor. É uma casa super-povoada e cheia de saudades que nos olham verdes  pelas frestas do telhado, galhos de árvores nos acenando escancarados pelas janelas.

 Dezoito anos. Eu me lembrei deles, acredita? Eles e eu, eu com eles chegando ao Rio para me matricular no Curso Hélio Alonso ( rua México)  me preparando para   vestibular.  Moraria, viveria e sonharia no Rio, estudando lá, durante os seis anos em que mais se sonha.

 Também lera sobre a intervenção no Rio. E mais,  senti sobre a intervenção no  Rio. Naquele Rio libérrimo em que, de madrugada, andávamos a pé e sem medo. Quando o Lamas ficava providencialmente ali pertinho, no Largo do Machado. Quando  andava de bonde e comia no Restaurante do Calabouço.

Temos eu e minha geração um vínculo muito especial com o Rio, Capital do Estado, para nós e para sempre Capital do Mundo. Agora sob intervenção. E percebo que meu coração  averbou ser o Rio uma casa abandonada. Deixada ao léu após o saque. Após os saques. Após sucessivos saques.Pelas frestas se vê, porque transborda, a miséria que faz a riqueza das milícias e dos traficantes, quiçá de governantes. Traficantes e milícias ocupam, governam, os cômodos abandonados e desgovernados; e se enriquecem disciplinando a miséria.

Aí, uma população amedrontada, parte dessa cidade indomável, se submete a uma violência que agora ( aliás já de muito tempo)  transborda para as venturosas áreas nobres. Porque é de justiça que a miséria rebrote conseqüências, e não possa ser isolada por um cordão sanitário. Não se pode deixá-la para sempre em quarentena. Agora o crime desceu  o morro ( casa abandonada) onde o vício urbano  subia para buscar alimento .E o tóxico perturba, viciante, violento, o sono despreocupado do asfalto.

Como os Bárbaros fizeram ao Império Romano, a miséria mal curada tem conseqüências invasoras. O traficante, o miliciano, não sei se assim diria Gramschi, são uma conseqüência especializada, como um desgraçado cogumelo,  de tal maldito abandono: sua requintada intelectualidade orgânica, por vezes analfabeta. Efeitos, não causa…

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