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ARTIGOS

Donos da verdade

Andre Uebe

Andre Uebe – Administrador, Professor, PhD

Desaplanar é uma aventura filosófica em forma de quadrinhos, escrita por Nick Sousanis. Em uma complexidade artística visual e reflexiva, o livro de Sousanis traz várias indagações filosóficas acerca de como vivemos enquadrados em modelos de pensamento que nos limita.

Sousanis faz um percurso pela história da humanidade, destacando o curioso fato de que, como a invenção das lentes de convergência, ampliaram a amplitude da visão focada humana, mas diminuíram sua percepção periférica para o mundo.

Em 1608, Hans Lipperhey, um alemão naturalizado holandês solicitou patente do seu telescópio refrator (luneta). Em seguida, personagens históricos popularizaram o seu uso, como Thomas Harriot que observou o cometa Harley pela primeira vez, além de iniciar o mapeamento do solo lunar, assim como Galileu Galilei, que revolucionou o do telescópio na Astronomia.

Em seguida o mundo como um todo se revoluciona, a ciência dá um salto em descobertas e, com isso, surge a necessidade de pessoas com conhecimento especializado para elaborar e montar novos equipamentos. O saber começa a ser fragmentado, daí.

Com a especialização das ideias, tudo no mundo se especializou: a ciência, as profissões e o próprio pensamento humano. E, com isto, foi muito mais fácil propor caminhos prontos a qual cada ser humano deveria indistintamente seguir, para estar de acordo com os quesitos de aceitabilidade social.

Uma das reflexões a qual destaco no livro de Sousanis, refere-se aos pontos de vista. Dada a nossa limitação humana de enxergar as coisas como um todo, percebemos as coisas em partes e buscamos entender o que nos cerca e chega até nós por meio de nossos sentidos, pelo diálogo entre estas partes.

Vejamos um exemplo. No livro Desplanar, há uma página inteira de quadrinho dedicada a nos fazer refletir sobre a nossa visão esterescópica. Para entendermos melhor isto, o autor nos mostra que nossa visão tridimensional, de profunidade só é possível pelo fato de que temos dois olhos que enxergam as coisas em um ângulo levemente diferente do outro. Para fazermos um teste prático e ssimples, basta colocarmos alguns dos dedos da mão à frente de um dos olhos aberto tampando alguma imagem ao longe. O outro deve ficar fechado de modo que a imagem seja coberta pelo dedo.

Agora, sem mexer o dedo, invertemos os olhos que estão abertos e fechados. O que acontece? A imagem que estava sobreposta pelo dedo aparece. Ou seja, o ângulo em que cada olho capta a imagem, não é o mesmo. E se não fosse por isto, não teríamos a noção de profundida. Ou seja, algo que se aproximasse de nós seria percebido apenas como algo que aumentasse de tamanho, sem nos dar a noção de que se aproxima de nós. Esta seria uma visão bidimensional.

Levando este conhecimento da física e da biologia para a filosofia, Sousanis nos faz refletir brilhantemente, o quão arrogante somos em querermos ser donos de alguma verdade, se nem sequer nossa percepção de mundo é feita por um único ponto de vista (um olho só). A sofisticação de nossa percepção só ocorre quando há um diálogo entre os pontos de vista.

No caso dos olhos este diálogo ocorre quando o cérebro processa e funde as distintas imagens dos olhos, gerando uma imagem tridimensional virtual . E no caso das verdades, das ideias que defendemos, é como se cada uma delas fosse um olho que enxerga em um ângulo, onde só ganham real significado e utilidade, pelo dialogo que se estabelece com outras ideias. Portanto, é o resultado do dialogo, e não a ideia em si, que tem significância para nosso aprendizado e evolução para os indivíduos e a humanidade.


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